sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A crise Ebola - uma breve introdução

Desde 1995 venho estudando as epidemias de Ebola/Marburg (Câmara, F.P. (1995). O Vírus Ébola e sua Infecção. A Folha Médica, 111(1): 47-51) e modelando-a para compreender melhor o contágio. Em 1996 fui o único brasileiro a participar da reunião em que durante quatro dias todo estado da arte sobre o vírus Ebola foi discutido. Isto se deu no Institut de Médicine Tropicale Prince Léopold, na Antuérpia, Bélgica. Comemorava-se os 20 anos da descoberta do vírus mais perigoso do planeta, e na ocasião conheci todos os participantes da caçada a esse patógeno em 1976, na província de Yambuku, norte do Zaire (hoje República Democrática do Congo, RDC), e pude acessar os dados que precisava para completar minhas análises.

Conclui que todos os surtos tiveram sua origem em um contato com alguma carcaça de primatas não humanos, geralmente chimpanzés, levado para aldeia como refeição. No caso de o primata ter sido vitimado por uma epizootia de Ebola, ele tornava-se uma fonte primária de infecção para a comunidade, e a partir daí tem início as cadeias secundárias de transmissão pessoa a pessoa. Isto ficou bem documentado como a crise zoonótica que serve de ignição para as epidemias em comunidades (Câmara, F.P. (1998). The Epidemiology of Ebola Virus: Facts and Hypothesis. Braz. J. Infect. Dis., 2(6): 264-267). Esse vírus emergiu porque, de alguma forma, as epizootias em primatas começaram a ser mais frequentes nas selvas, algo desequilibrou o ecossistema tropical africano (já então muito degradado pelo homem) e os primatas residentes passaram a ser mortalmente atingidos. Os precários hospitais improvisados pelas missionárias ursulinas belgas foram responsáveis pela amplificação do vírus, através do uso de seringas compartilhadas, uma prática comum que viria a ser banida com a pandemia da aids (embora ainda seja utilizada em alguns países).

Na época, não se tinha elucidado ainda o reservatório natural do vírus Ebola, que hoje sabemos ser morcegos frugívoros da família Pteropodidae, amplamente disseminados na África subsaárica, e que infetam chimpanzés, gorilas e uma variedade de macacos, e também mamíferos como o porco-espinho e o antílope, entre outros. Já se desconfiava de morcego frugívoros serem o reservatório natural de filovírus (Ebola e Marburg) após diversas infecções terem sido traçadas em sua origem ao famoso Monte Elgon, uma zona vulcânica situada no Quênia ocidental, uma enorme caverna de morcegos que também é um cemitério de animais, algo tétrico (no filme Rei Leão essa caverna serve de cenário em uma parte do desenho). Alguns casos de febre hemorrágica por Marburg foram originados pela inalação de aerossóis de dejetos e saliva de morcegos que habitam o interior dessa caverna. Os casos humanos foram, portanto, esporádicos, acidentais, mas os primatas não humanos que compartilham alguns nichos com esses morcegos são alvos expostos. O reservatório natural do vírus Marburg é o morcego frugívoro africano Rousettus aegyptiacus, de ampla disseminação na África, o que mostra o potencial epidêmico dessa doença. De fato, o vírus Marburg, tão letal quanto o seu "primo" Ebola, vem emergindo em proporções cada vez maiores na África subsaárica.

Quem já foi a uma feira livre nas pequenas cidades da RDC, verá que lá se vende carne de macacos para consumo, e podemos ver também morcegos vendidos envoltos em uma folha onde são assados e consumidos. É um costume também encontrado em outras regiões do mundo. Vê-se que há um fator de risco presente, entretanto, nossas estudos evidenciam que epidemias de Ebola tem como fonte primária um contato com um primata doente ou morto pela virose. A contaminação se dá pelo contato direto com fluidos, carnes e secreções do animal (infecção primária), e a partir daí o indivíduo exposto torna-se doente e passa a transmitir o vírus por contato direto, iniciando cadeias secundárias de infecção. A doença passa agora a se propagar entre aqueles que cuidaram dos doentes sem proteção, os que lavaram e prepararam os corpos mortos para enterro, e os que entraram de alguma forma em contato com material contaminado (fomites). Não há contágio por via aérea, isto é, por perdigotos, como no caso da gripe. Não se notou essa possibilidade nas epidemias e surtos passados (eu pude verificar isso analisando uma base de dados de contactantes das epidemias de 1976 e 1979). Enfim, as epidemias de Ebola/Marburg podem ser eficientemente interrompidas com:

1) Barreira de proteção no trato com os pacientes (luvas, aventais, desinfetantes, lavar bem as mãos, etc. etc.). Essa medida é muito eficaz;
2) Desinfecção local com hipoclorito de sódio diluído (água sanitária) ou qualquer outro produto de limpeza que usamos em nossa casas;
3) Higienizar os cadáveres e isolá-los, impedindo qualquer manipulação e cremando-os ou enterrando-o rapidamente;
4) Quarentena, uma medida de grande eficácia e de eficiência incontestável.

Em meu livro "A Ciência das Epidemias" pode-se encontrar bem mais informação sobre esses vírus.


Um comentário:

  1. Excelente texto, professor! Estou lendo pra minha família, que me bombardeou de perguntas sobre o Ebola.

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